E se vacina de Oxford não for eficaz contra variante brasileira?

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A comunidade científica espera para as próximas semanas conclusões de estudos sobre a variante do coronavírus identificada no fim de 2020 em Manaus (AM), chamada de P.1. Um dos pontos pesquisados é a eficácia das vacinas que já estão sendo aplicadas no Brasil — Oxford/AstraZeneca e CoronaVac — contra esta cepa.

Além disso, cientistas também querem estimar qual é a prevalência da P.1 entre os casos positivos de covid-19.

Há preocupação da OMS (Organização Mundial da Saúde) em relação à variante encontrada no Brasil.

No boletim semanal mais recente, na terça-feira (9), a entidade alertou para o fato de a cepa ser potencialmente capaz de diminuir a proteção conferida pelas vacinas.

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Isto porque a P.1 tem tem quatro mutações significativas em comum com a cepa que circula na África do Sul desde agosto do ano passado, chamada de B.1.351, e que já se mostrou mais resistente a alguns imunizantes, como de Oxford/AstraZeneca, da Janssen e da Novavax, além de diminuir em seis vezes a proteção da vacina da Moderna. 

As alterações foram observadas na proteína S, que fica na “coroa” do vírus e é por onde ele se liga aos receptores humanos no momento da infecção. 

O governo da África do Sul suspendeu o uso do imunizante de Oxford após resultados preliminares de um estudo da Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, que mostraram “eficácia mínima da vacina”.

A taxa de proteção caiu de 62% para 22% contra casos leves e moderados. A cepa B.1.351 já é predominante entre os casos reportados na África do Sul.

O chefe da equipe de especialistas que assessora a OMS no tema de vacinas, Alejandro Cravioto, afirmou que a menor eficácia da vacina de Oxford contra novas cepas foi detectada principalmente contra casos leves e moderados, mas que “há evidências indiretas de que ainda protege em casos graves”.

“Considerando esses fatores, não há razão para desaconselhar o uso, nem em países que tenham a circulação das novas variantes do coronavírus”, disse em entrevista coletiva na quarta-feira (10).

A Fiocruz enviou, no começo do mês, amostras de soro de pacientes brasileiros infectados com a P.1 à Universidade de Oxford para que sejam feitos os testes de eficácia.

Mas o que acontece com as vacinas já em uso se a variante brasileira escapar da proteção conferida pelas vacinas que já estão sendo aplicadas aqui?

A reportagem questionou diretamente a Fiocruz e o Ministério da Saúde sobre quais os planos caso a vacina de Oxford se mostre pouco eficaz contra a P.1, mas não houve resposta.

Para a médica Mônica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), é fundamental que haja sequenciamento genético frequente das amostras de pacientes em todo o país para saber qual é a prevalência da P.1 em relação às demais.

“O Brasil está vacinando rapidamente Manaus, que foi onde surgiu essa cepa variante e levou àquela situação de caos. Se essa cepa não disseminar no Brasil inteiro com a vacinação em massa na região Norte, ou que novas mutações que escapem dos anticorpos produzidos pelas vacinas não apareçam, é uma situação em que a gente pode continuar usando e fabricando a mesma vacina [de Oxford].”

Todavia, diante de uma disseminação geral da variante e da comprovação de que ela é resistente à vacina de Oxford, Mônica entende que será necessário adaptar o imunizante.

“Eu acho que seria melhor continuar com a CoronaVac — por ser uma vacina de vírus inativado inteiro — com alta produção, rapidez e adaptar a vacina de Oxford à cepa predominante. Mas apenas se essa cepa tomar conta. Por exemplo, na África do Sul, 90% dos circulantes são dessa cepa mutante.”

O boletim da OMS destaca que, em Manaus, “a proporção de casos com P.1 entre as amostras testadas aumentou de 52% em dezembro de 2020 para 85% em janeiro de 2021”. Por isso, a importância de haver dados atualizados em relação a outras regiões do Brasil.

A vacina de Oxford tem como foco justamente a proteína S do coronavírus, acrescenta Mônica, diferente da CoronaVac, que utiliza uma tecnologia com o coronavírus inteiro inativado.

“Os estudos de eficácia dessas vacinas foram com as cepas originais. Então, Janssen, Novavax e Oxford foram testadas agora já mostrando uma perda grande de anticorpos neutralizantes eficazes. Isso não é uma hipótese, já está acontecendo, tanto que estão começando a trabalhar em uma segunda geração adaptando a vacina com a genética da proteína S das cepas mutantes.”

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou em entrevista coletiva, no começo da semana, que a CoronaVac é eficaz contra as cepas identificadas no Reino Unido e África do Sul.

“Essa é uma preocupação de todas as vacinas, mas principalmente daquelas vacinas que têm uma única proteína como antígeno, que é a chamada proteína S. De fato, essas vacinas têm apresentado desempenho inferior, principalmente com essa cepa sul-africana. Não é o caso com as vacinas de vírus inativado. Já tem testes contra essas duas variantes — inglesa e da África do Sul — e tiveram bom desempenho. Estamos agora testando contra a variante amazônica. Estamos fazendo, inclusive, com amostras de soro de pessoas vacinadas aqui no Brasil.”

O R7 procurou o Butantan para saber mais detalhes sobre os estudos citados por Dimas Covas, mas o instituto não forneceu informações e sugeriu que o contato fosse com o desenvolvedor do produto, o laboratório chinês Sinovac Life Sciences, que não se manifestou.

A maior parte das vacinas já em uso contra a covid-19 tem como alvo a geração de anticorpos contra a proteína S do vírus.

Mutações como as do Reino Unido, África do Sul e Brasil criam um desafio em relação a esses imunizantes, tanto que a OMS as classifica de “variantes preocupantes”, ou VOCs, na sigla em inglês. 

Além da possível resistência aos imunizantes, essas cepas também podem ser responsáveis por casos de reinfecção. 

A cepa britânica, B.1.1.7, não se mostrou resistente às vacinas da Pfizer/BioNTech, Moderna e Oxford/AstraZeneca.

Mesmo assim, alguns laboratórios já estão se antecipando para lançar nos próximos meses vacinas de segunda geração adaptadas às novas variantes.

A Universidade de Oxford e a AstraZeneca esperam para outubro um imunizante atualizado. No entanto, a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, disse que é melhor utilizar o que está disponível atualmente. “Qualquer uma disponível é melhor do que esperar.”

A norte-americana Moderna também detectou que houve redução “de seis vezes” nos títulos de anticorpos neutralizantes conferidos pela vacina desenvolvida por ela em pessoas infectadas pela cepa sul-africana. Ainda assim, a proteção permaneceu “acima dos níveis que se espera”, afirmou a empresa.

Embora os resultados possam ser considerados otimistas em relação a outros imunizantes, a Moderna já começou os estudos com um terceira dose de reforço e com uma vacina adaptada às novas variantes.

“Com muita cautela e aproveitando a flexibilidade de nossa plataforma de RNAm [RNA mensageiro], estamos avançando na clínica em uma [vacina] candidata a reforço contra a variante identificada pela primeira vez na República da África do Sul para determinar se será mais eficaz aumentar os títulos contra esta e outras variantes potencialmente futuras”, acrescentou o diretor-executivo da Moderna em comunicado.

Mônica Levi explica que a vantagem da vacina de Oxford é que haverá transferência de tecnologia para a Fiocruz, o que facilita no futuro mudanças no antígeno.

“Se os estudos mostrarem que a cepa identificada em Manaus, a P.1, que guarda muitas coisas semelhantes nas mutações com a cepa da África do Sul, se a vacina não for efetiva aqui no Brasil, como não foi na África do Sul, acho que a Fiocruz vai adaptar de acordo com a cepa circulante.”

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