Carrefour é cobrado a adotar mudanças por organizações que combatem racismo

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Um grupo de ONGs e coletivos negros encaminhou um manifesto à rede Carrefour exigindo a adoção de 11 medidas após a morte de João Alberto Freitas em uma de suas unidades no Rio Grande do Sul, na última quinta (19). A empresa sinalizou que convidaria as entidades para uma reunião em breve.

No documento, o grupo pleiteia uma indenização acordada com a família da vítima, o investimento de 10% do lucro anual em instituições de combate ao racismo e a promoção de treinamentos e ações para seus colaboradores com o intuito de fomentar o antirracismo.

As entidades ainda pedem que as empresas terceirizadas de segurança contratem negros ativos no movimento antirracista para capacitarem todos os funcionários, com curso de no minímo 20 horas a ser realizado até o fim do ano. Aquelas que descumprirem, sugere o grupo, devem ter seus contratos encerrados já em janeiro de 2021.

Também solicitam que o Carrefour destine a negros 30% dos cargos de média e alta direção em suas unidades e com salário igual ao de pessoas brancas que exerçam a mesma função. As vagas deveriam ser ocupadas até 21 de março do ano que vem, data que marca o Dia Internacional da Luta contra o Racismo.

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Manifestantes em frente à loja do Carrefour em que João Alberto foi morto por seguranças: ações de combate ao racismo são tratadas de forma genérica por candidatos da principais capitais Foto: Foto: Ricardo Moraes/Reuters
Manifestantes em frente à loja do Carrefour em que João Alberto foi morto por seguranças: ações de combate ao racismo são tratadas de forma genérica por candidatos da principais capitais Foto: Foto: Ricardo Moraes/Reuters

O grupo cobrou ainda providências do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da empresa B3, que coordena a Bolsa de Valores no Brasil. Nesse último caso, as entidades se basearam em pesquisas sobre estruturas de governança nos sistemas financeiros mundiais.

No manifesto, os coletivos afirmam que não é só o Carrefour que precisa rever suas práticas, mas todas as empresas que atuam no Brasil.

“Exigimos de todas as demais empresas que atuam no Brasil, multinacionais ou não, que providenciem uma revisão urgente de seus protocolos e apresentem à comunidade afro-brasileira e à sociedade um plano que contemple o respeito à diversidade e à equidade”, escrevem.

Sob liderança do movimento Educafro, compõem a comissão executiva do manifesto os coletivos Lutas Pretxs, Projeto Escrevendo a Liberdade, Coletivo Mulheres Pretas no Poder e o Jornal Empoderado. Mais de 500 pessoas de entidades relacionadas ao movimento negro em todo o país participaram da construção do documento por meio de um aplicativo de conversas.

Leia o texto na íntegra:

A EDUCAFRO e demais entidades abaixo relacionadas, que compuseram a comissão executiva, apoiam a “Coalizão Negra por Direitos” frente a Representação ao Ministério Público Federal e Ministério Público do Rio Grande do Sul, exigindo a investigação contra o Carrefour e a responsabilização da empresa pela prática de crime de racismo.  E mais:

“O POVO AFRO-BRASILEIRO EXIGE RESPEITO E INDENIZAÇÕES”

A exemplo da “COALIZÃO”, motivamos a comunidade afro-brasileira e solidários a organizarem protestos em todas as cidades onde existam unidades do Supermercado Carrefour, em qualquer dia, até o final do mês da consciência negra – novembro de 2020.

Aconselhamos, a exemplo da “COALIZÃO, a todos/as afro-brasileiros e brancos solidários a não COMPRAREM NO CARREFOUR – a evitarem frequentar essa rede durante o mês de novembro, para evitar que sejam surpreendidos por protestos relâmpagos que estão sendo organizados e os mesmos possam sair do controle dos organizadores.

Exigimos dos dirigentes do Rede de Supermercados Carrefour, as seguintes medidas:

1 – Todas as empresas terceirizadas de segurança devem contratar negros/as/es que sejam ativos no movimento antirracista, para repassarem os devidos treinamentos para que todos os seus funcionário@s adotem tais práticas em benefício de toda a sociedade. O curso deverá ter no mínimo 20 horas e ser realizado até 31 de dezembro de 2020.

2 – Todas as Terceirizadas da Segurança que não apresentarem o certificado de curso ministrado e o vídeo do treinamento, deverão ter seus contratos encerrados a partir do dia 1º de janeiro de 2021. Do mesmo modo, as futuras empresas só venham a ser contratadas se já estiverem em dia com a mesma exigência.

3 – Que 30% dos cargos, de média e alta direção de todas as unidades do Carrefour, sejam ocupados por negros/as até o dia 21 de março de 2021, dia internacional de luta contra o racismo. Que tenham o mesmo salário de brancos, para o mesmo cargo.

4 – Que, a partir do dia 1º de janeiro de 2021, todas as empresas fornecedoras de produtos para a Rede Carrefour atestem adotarem um plano de inclusão de negros/as em todos os seus cargos de média e alta direção. Caso não comprovem esta meta, que seus contratos sejam encerrados.

5 – Que a Empresa B3, que coordena a bolsa de valores no Brasil, retire o Carrefour da listagem das empresas pertencentes à segmentação de Novo Mercado e que suspenda a Rede Carrefour de negociar seus papéis na B3, até que esta empresa adote um plano de inclusão com atividades e metas nítidas, conforme os pontos desta carta aberta.

6 – Em cada cidade onde há unidades do Carrefour, que sejam destinadas, a partir de 1º de janeiro de 2021, 100 bolsas de estudos integrais para jovens negr@s. Essas bolsas devem cobrir todos os custos durante os anos dos cursos escolhidos pelos jovens negr@s.

7 – Que o Ministério Público do Trabalho chame para uma Audiência Pública o Comando Nacional do Carrefour e o obrigue a assinar um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) a partir dos pontos dessa carta. Que o MPT fiscalize seu cumprimento com garra e determinação, criando em cada Estado uma comissão mista com os movimentos sociais negros e outros de direitos humanos.

8 – Que a família da vítima seja indenizada com justiça e compromisso, em um acordo, sem esperar o acionamento da justiça.

9 – Que invistam 10% do lucro anual em Instituições de combate ao Racismo.

10 – Não é justo punir só os criminosos. Queremos criminalização também dos mandantes indireto, proprietários da Rede Carrefour.

11 – Que o Carrefour promova treinamentos e ações com todos seus colaboradores, diretos e indiretos, para promover o antirracismo, uma vez que este não é o primeiro ato de racismo que a empresa tem seu nome envolvido, inclusive com a morte de um indivíduo negro em um de seus estabelecimentos que foi coberto com um guarda-chuva enquanto a loja continuou em funcionamento.

O RACISMO continua provocando grandes estragos no convívio social brasileiro. A Bolsa de valores precisa cumprir seu papel conforme a Constituição Brasileira, no artigo 198 e responder a carta entregue pela EDUCAFRO ao seu Presidente.

As universidades, adotando as cotas e o ProUni, fizeram sua parte. Exemplo: negros avançam nas graduações que mais formam executivos, mas ainda são invisíveis para as empresas. Só falta o conjunto das empresas abraçar a equidade na inclusão.

Não só o CARREFOUR precisa rever suas práticas. Exigimos de todas as demais empresas que atuam no Brasil, multinacionais ou não, que providenciem uma revisão urgente de seus protocolos e apresentem à Comunidade Afro-brasileira e à sociedade um plano que contemple o respeito à diversidade e à equidade.

Entidades que formaram a comissão de trabalho:

Lutas Pretxs – São Paulo

Projeto Escrevendo a Liberdade – Rio de Janeiro

Coletivo Mulheres Pretas no Poder – São Paulo

Jornal Empoderado – São Paulo

Direção Nacional da EDUCAFRO BRASIL

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